No Acalanto da Noite
Caros Hóspedes Fiéis,
Mais um conto para nosso concurso.
- Andy
Kleber estava terminando sua cerveja e pensando sobre os últimos acontecimentos em sua vida. Na razão pela qual estava tão distante de casa. Escondido dos problemas e principalmente de problemas ainda maiores.
Havia sido idéia de Ratão ele dar um tempo na casa da irmã, no interior de São Paulo. Pelo menos até as coisas esfriarem. O incidente com a velha poderia trazer mais complicações, e isso poderia afetar todo o esquema que eles tinham na região. Portanto, o melhor era dar um tempo longe do local e voltar só quando as coisas se acalmassem.
A velha tinha estragado tudo. Custava ela ter colaborado no assalto? Não, ela tinha que dar uma de mocinha e reagir, dando-lhe bolsadas na cabeça e gritando por ajuda. Ele não tinha a intenção de feri-la, mas quando percebeu já tinha lhe enfiado o canivete logo abaixo da axila esquerda.
O problema maior era que a velha era mãe de um policial, e ele sabia que o coxinha não iria deixar de ir atrás dele, e de quem estivesse com ele.
- Mais uma gelada, por favor? Pediu ao balconista.
- É pra já, filho! – disse o balconista pegando mais uma garrafa de seu freezer horizontal.
O lugar não estava muito cheio. Havia alguns homens jogando dominó e outros jogando sinuca. Já estava na cidadezinha há uns três dias e não estava mais aguentando o lugar. Era sossegado demais para ele. A agitação da cidade era o que lhe agradava. O tumulto das pessoas trafegando pelas ruas. Além do que, era perfeito para executar seus furtos e sumir no meio da multidão.
Desde que seus pais morreram em um acidente de carro, há 10 anos, e ele passara a morar com uma tia, as coisas haviam se enveredado por outro caminho. Estava com 13 anos na época, e as mudanças da adolescência já estavam aparecendo. O nervosismo e a intolerância já eram presentes, mas com a falta dos pais esses sentimentos haviam sido multiplicados. Logo ao mudar de escola, por conta de ir morar com a irmã de sua mãe, ele começou a se envolver com uma turminha barra pesada. Conheceu os cigarros de maconha, e antes do final do ano já estava tendo seus momentos de intimidade com a cocaína
Mas Kleber sempre procurou esconder tudo dos tios. Não entregava os bilhetes que a diretoria encaminhava. Quando seu tia participava das reuniões ele sempre dizia que os professores estavam de marcação com ele. Que suas notas não eram tão ruins. Tudo graças às colas que pegava dos colegas em troca de um pouco de erva. Mas isso seus tios não precisavam saber, é claro.
As coisas ficaram melhor quando seu tio faleceu, 4 anos depois, deixando sua tia quase louca e apavorada em poder cuidar das contas do mês. Foi quando ele largou os estudos, com o pretexto de ajudar sua tia nas despesas de casa. No entanto, o dinheiro que vinha para dentro de casa era fruto dos furtos de Kleber.
Através dos amigos ele conheceu Ratão, que gostou do jeito do rapaz e viu que poderia usá-lo nas diversas formas de trabalho ilícito que tinha montado na região.
Por vezes quase havia sido apanhado pelos policiais. Mas era esperto, e sempre conseguiu se safar. Mas tudo mudou com o assalto da velha. No dia seguinte duas viaturas começaram a fazer patrulha na área, forçando-o a ficar escondido. Foi quando Ratão sugeriu a mudança de ares.
Sua tia não desconfiou muito. Há tempos que queria um pouco de paz e distancia do sobrinho. Quando ele disse que iria visitar a irmã, ela apoiou a decisão com um grande sorriso nos lábios.
E lá estava ele, em volta com um povo sem graça e privado de poder cometer seus delitos, pois além de tudo a cidade era muito pequena, e qualquer tentativa de poder realizar qualquer assalto iria lhe incriminá-lo, e no momento ele tinha que manter os olhares longe da sua pessoa.
O som da pedra de dominó sendo esmagada contra a mesinha de madeira chegou até seus ouvidos, arrancando-o de seus pensamentos.
- Bati, pato! Gritou um dos caras da mesa.- Fechamos o raio, hehehe. Lambreta, lambreta ?- Ria ele com sua boca desdentada.
- Mas agora vamos à forra, Juvenal ? – disse um dos adversários.
Juvenal olhou para seu relógio e sacudiu a cabeça.
- Fica pra uma próxima, pessoar. Tá ficando tarde, e tenho um caminho longo pela frente. Não quero ser pego pelo lobisomem.
Kleber quase cuspiu a cerveja da boca com vontade de rir.
- Lobisomem? Vocês acreditam ainda nessas histórias? Perguntou Kleber não se contendo.
Juvenal se virou e encarou o rapaz com os olhos cerrados.
- Ocê num é daqui, né garoto?
- Não, sou da capital! Disse Kleber com o queixo erguido em sinal de superioridade.- Estou passando uns dias na casa da minha irmã.
- Pois se fosse você não iria demorar muito pra ir pra casa.
- Por causa do lobisomem? Disse Kleber sufocando um riso com as costas da mão.
- Escuta aqui, filho! Por essas bandas tem um bicho que anda durante as noite de lua cheia, como hoje, e posso te dizer que num é um bicho quarqué. É um bicho que perambula pelo nosso quintar, e se apropria das nossas criação. É um bicho que num tem medo de nada e que seus uivos congela o sangue nas veia de quarqué um. Se fosse ocê, num ficava se disfazendo das coisa que num conhece. Principarmente de uma coisa que num pertence ao mundo dos vivo.
- Como assim “dos vivo”, alguém já tentou matar essa tal criatura e não conseguiu?
- Sim, senhor! Foi isso mesmo que já tentaro fazê. Mas ninguém nunca conseguiu penetrar o couro do bicho. Nem com tiro, nem com faca, nem pau e nem pedra. Nunca conseguiram tirar uma gota de sangue daquele bicho. Dizem até que ele consegue sentir o cheiro de gente ruim. Já ficamos sabendo de pessoas que encontraram com a criatura e levaram uma sova daquelas. Pessoas que num eram muito boas e outras que num acreditavam que a criatura existia. É um bicho de que não se pode fugir e nem enfrentar.
- O senhor deve estar brincando comigo – disse Kleber olhando para o senhor na sua frente. Mas os o lhos de Juvenal não demonstravam brincadeira. Eram os olhos de alguém que já havia visto muita coisa na vida. Olhos experientes e matreiros.
Kleber olhou para as demais pessoas que estavam no estabelecimento, e todos prestavam atenção ao que estava sendo dito e encaravam Kleber de maneira hostil.
Era como estar rodeado de lobos. Observando cada movimento seu, esperando apenas o momento do ataque.
- Tudo bem, gente! Eu acredito em vocês. É que na cidade não temos a oportunidade de encontrarmos esse tipo de animal.
- Acho que está na hora de você ir pra casa, filho! Disse o balconista de maneira pouco amigável.
Kleber sentiu que era o melhor a ser feito. Tirou o dinheiro da carteira e pagou pelas bebidas.
- Tenham uma boa noite! Disse ele aos senhores que estavam ali.
Eles não responderam, e na verdade Kleber nem estava esperando que o fizessem. O melhor era ir para casa tomar um banho quente e ir para a cama.
A casa de sua irmã era um pouco distante do bar em que estava. Mas Kleber não estava com muita presa de chegar logo. Aqueles caras estavam ficando caducos. Bando de senis. Eles que acreditassem nas histórias malucas que inventavam.
Havia um modo de Kleber chegar mais rápido até a casa da irmã. Era por dentro de um pasto próximo. Não que ele quisesse chegar mais rápido em casa, mas era um excelente lugar para acender um baseado. Longe dos olhares curiosos do lugar.
Kleber pulou a cerca de arame farpado e se encaminhou para debaixo de uma árvore que ficava quase no meio do pasto.
A lua brilhava leitosa acima de sua cabeça. Uma linda noite de lua cheia. Ideal para namorar, ou queimar um baseado. Como ele não estava com nenhuma garota, o melhor era acender logo o bagulho.
Se acomodou junto ao tronco da árvore e tratou de acender seu companheiro. Logo nas primeiras puxadas começou a se sentir mais tranqüilo. Mais leve, solto e alegre. Um sentimento que só aquelas maravilhas podiam lhe proporcionar. Sabia que os olhos logo estariam vermelhos. Mas sempre podia colocar a culpa na cerveja. Sua irmã e seu cunhado não iriam desconfiar.
Um som abafado chegou até os ouvidos de Kleber. Que não deu muita atenção, por conta dos efeitos da maconha. Logo o barulho se tornou mais próximo. Sons parecidos com pisadas, só que mais suaves, mais macias, acolchoadas, como patas.
O grande vulto passou por Kleber, e parou. Kleber se engasgou com aquela visão. A criatura voltou seu enorme volume corporal na direção dele. Fungando o ar. Sentindo o aroma que estava ao seu redor. Sentindo o cheiro de Kleber. Era o maior cachorro que ele já vira. Um pastor-alemão gigantesco. Seus olhos encontraram os olhos do animal. Um amarelo-alaranjado penetrante. Kleber começou a duvidar que se tratasse de um cachorro. Talvez fosse o animal de que os caras do bar estavam falando. O lobisomem.
Ele sacou seu canivete automático, mas não teve de usá-lo, pois a enorme pata desceu sobre sua mão e lhe arrancou o canivete, junto com outros três dedos. O nó na garganta não lhe permitiu que soltasse nenhum som em busca de socorro.
O enorme animal se aproximou ainda mais de Kleber. Seu focinho quase lhe tocava o nariz. Seus olhos agiam como que imãs aos olhos de Kleber. Era impossível se desviar deles. A vontade do animal era maior que sua vontade.
Dizem que quando estamos próximos da morte um filme passa diante de nossos olhos. Kleber pôde ver esse filme através dos olhos do grande animal. Um filme de sua vida de maldades, brutalidades e crimes. A última imagem que lhe chegou aos olhos foram da pobre velhinha que tinha lhe atravessado o caminho. Viu-a tentando lhe repudiar com a bolsa e viu quando o canivete lhe penetrou na carne, fazendo com que a pobre senhora parasse de atacá-lo e se contorcesse de dor no meio da calçada.
Aquela imagem lhe revelou no que ele havia se tornado. Ele percebeu em que tipo de ser humano ele era agora. Talvez por isso ele não tenha conseguido lutar quando o grande animal enterrou os enormes dentes em seu pescoço. Foi uma morte rápida, quase indolor. Afinal, ele poderia até agradecer por esse desfecho derradeiro.
Nunca encontraram seu corpo, e sua irmã achava que Kleber poderia estar em qualquer lugar, já que tinha uma vida totalmente incerta, e os caras do bar não comentaram mais sobre aquela noite em que viram o garoto pela última vez. No fundo eles sabiam o que havia acontecido. Mas a coisa havia se tornado um segredo entre eles. Um segredo que eles compartilhavam apenas com a grande criatura e com a lua cheia, leitosa e imponente.
FIM
Você sabe que é fã de Stephen King quando…
Caros Hóspedes Fiéis,
Ei um texto muito interessante (e verdadeiro, hehehe) para descobrir se você é realmente um fã do mestre, hehehe. Divirtam-se
- Andy Dufresne
Você sabe que é fã de Stephen King quando…
(it)
O Gênio da Lâmpada
Caros Hóspedes Fiéis,
Eis o primeiro conto para participar do nosso concurso de contos de Final de ano.
Espero que gostem.
- Andy Dufresne
Alberto estava sentado a beira mar, pensando na vida, estava acostumado àquela cena. Do vai e vem das ondas. Num momento de distração uma pequena onda trouxe um objeto até seus pés.
___ O que será isso?
Pegou o objeto e examinou, era uma garrafa antiga, feita com um material que lembrava porcelana, só que mais resistente, seu formato lembrava um vidro de perfume, arredondado em baixo e com o gargalo fino e comprido.
Tinha uma cor bem indefinida, algo que lembrava o roxo bem escuro e havia inscrições que ele não podia identificar, mas, parecia estar gravada em ouro.
Estava lacrada, a tampa tinha uma trava fácil de ser removida, a curiosidade dele estava aguçada, pois a garrafa apesar de ter cerca de quinze centímetros pesava cerca de uns vinte quilos.
Abriu!
Uma fumaça verde começou a sair da garrafa e a tomar forma. Uma mulher morena, com trajes sensuais e olhos verdes apareceu:
___ Quem é você? – perguntou Alberto a moça.
___ Meu nome é Zoraide. Sou um gênio, você me libertou da minha eterna prisão. Agora sou sua escrava e posso realizar três pedidos seus.
___ Mas isso parece um conto de fadas…
___ Não meu amo e senhor, não é um conto de fadas, é a pura realidade, com todas as conseqüências que podemos acarretar, por isso eu peço ao senhor, que reflita muita antes de fazer seus pedidos, pois toda ação tem uma reação, que pode ser boa ou ruim.
Alberto levou zoraide para sua casa, ela a serviu como uma boa escrava, servia-lhe a mesa e na cama, de acordo com a vontade dele, ou ele pensava que era assim.
Muitos meses depois Alberto andava pensativo, comia pouco e não procurava Zoraide. Quando ela perguntou o que estava acontecendo ele respondeu?
___Zoraide, eu queria usar meu pedido.
___ Amo! O senhor pensou bem?
___ Claro que sim. Há meses venho pensando, tanto no pedido quanto nas conseqüências, e eu resolvi pedir muito dinheiro, para que eu possa ajudar meus irmãos.
___ Então o senhor quer ter muito dinheiro?
___ Sim.
Zoraide cruzou os braços em torno de seu corpo, fechou os olhos e se concentrou no pedido de Alberto, foi nesse momento que o telefone tocou:
____ Alo! Antonia, oi querida irmã!… O que?… Quando…Mais como isso foi acontecer Antonia?… Irei já para ai minha irmã.
Alberto desligou o telefone muito triste, com os olhos lacrimejando, mal pode olhar para Zoraide.
___ Algum problema amo!
___ Meu irmão morreu. Meu amigo morreu Zoraide, você sabe o que é isso? Acho que não, pois você é uma gênia.
Zoraide não disse nada, mas, seu olhar era de muito ódio e saiu pensativa da sala.
Foram dias muito tristes aqueles, Alberto era filho de um segundo casamento entre Sr. João e dona Albertina, ambos já falecidos, tinha uma irmã por parte de mãe e um irmão por parte de pai. Era muito ligado a eles.
Após cinco dias depois do falecimento de Otaviano, Alberto recebeu um telefonema da empresa em que seu irmão trabalhava:
___ Alo!
___ Boa Tarde! Por favor, o Sr. Alberto Tuffik?
___Ele mesmo.
___ Sr. Alberto, eu me chamo Regina Moraes e trabalho na M & M construções, a empresa onde o seu irmão trabalhava.
___ Sei. Conheço a empresa.
___ Estamos ligando, pois não sei se o senhor sabe, mais seu irmão deixou um seguro de vida no nome do senhor…
___ Como?
___ Ele não tinha filhos, esposa, e o parente mais próximo seria o senhor, então ele colocou a apólice em seu nome…
___ Não posso acreditar.
___ O Senhor poderia vir aqui assinar a documentação e receber seu dinheiro.
___ Só uma pergunta? De quanto é esse seguro?
Alberto ficou pasmo com a noticia. Teria alguns milhões em sua conta em poucas horas, parecia um sonho, mas, esse sonho tornou-se pesadelo.
___ Zoraide!
___ Sim amo!
___ Você ouviu o telefonema?
___ Sim, amo!
___ Eu queria ficar rico, pedi isso a você antes daquele telefonema horrível, agora por causa da morte do meu irmão fiquei milionário. Usei o pedido em vão.
___ Creio que não amo!
___ Como assim?
___ Seu desejo foi realizado, o senhor não pensou na conseqüência que ele traria. Seu irmão precisou morrer para que o senhor ficasse rico.
___ Não pode ser. Eu matei meu irmão? Foi minha culpa?
___ Não meu amo! A culpa é do poder do além. Alguém mais antigo que o próprio universo. O lado negro de todo o ser humano.
___ Como vou viver sabendo que meu irmão morreu por minha culpa. Por um desejo meu de ficar rico.
Os anos se passaram e Alberto esqueceu sua dor. Estavam levando uma vida de luxuria e prazer, tinha sempre ao seu lado as mais belas mulheres. Até que um dia confessou a Zoraide ter um grande amor.
___ Zoraide eu amo uma mulher há muitos anos. Pensei que poderia viver com ela, mas descobri que ela é casada com um homem sem escrúpulos. Um Ogro que a maltrata, dizendo-lhe palavras horríveis e surrando-lhe quando ela tenta separar-se dele.
Alberto lembrou-se que tinha mais dois desejos, olhou fixamente para Zoraide que adivinhando seus pensamentos se precipitou:
___ Qual é o seu desejo amo?
___ Eu desejo que Cassandra crie coragem e largue o marido para viver comigo, pois sei que meu sentimento também é correspondido.
___ Seu desejo é uma ordem.
Em menos de meia hora Cassandra bateu à porta de Alberto. Estava apenas com a roupa do corpo, disposta a viver com ele até que a morte os separasse.
Alberto viveu dias felizes, mal podia acreditar que uma vez na vida sentia-se inteiramente feliz. Só que tanta felicidade durou pouco, um dia Hemergildo (ex-marido de Cassandra), invadiu a casa de Alberto. Entrou no quarto onde os dois se amavam, e com um cinto começou surrar a ex-mulher. Enfurecido Alberto apanhou um castiçal de bronze que estava em cima da penteadeira e o deitou na cabeça de Hemergildo, fazendo jorrar sangue por todo o local.
Alberto foi preso. Julgado e condenado. Cassandra nunca fora visitá-lo na cadeia, apenas Zoraide se dava a este trabalho, por ainda estar presa a ele. Não agüentando mais a vida de presidiário, Alberto fez seu ultimo pedido a Zoraide:
___ Zoraide! Quero fazer meu último pedido.
___ Sim amo! Tenho que alertá-lo que assim que seu desejo for realizado eu voltarei para meu mundo.
___ Mesmo assim Zoraide, eu preciso fazer esse pedido. Eu quero que meus problemas se acabem.
Zoraide se concentrou pela ultima vez e desapareceu. Alberto caiu desacordado no chão da sala de visitas. Quando os médicos da prisão chegaram, ele estava morto.
Vinte anos depois…
Soraia caminhava sozinha pela praia. Encontrou uma linda garrafa roxa com inscrições douradas ao abrir a tampa um homem seminu que usava um turbante na cabeça, surgiu.
___ Quem é você?
___ Sou o gênio da lâmpada, me chamo Tuffik.
Estrada Deserta
Caros Hóspedes Fiéis,
Eis nosso segundo conto coletivo semanal. Espero que todos apreciem.
- Andy Dufresne
Estrada Deserta – Parte 1
Por Croatan
O sol já começava a desaparecer por detrás do horizonte naquele
começo de inverno no leste europeu. Ele permanecia sentado sobre uma pedra,
enquanto a garota deitava sobre a terra à margem da estrada.
Poucos metros antes, jazia o ônibus virado – cheio de uma geração
perdida da música erudita – que os dois haviam deixado após a certeza de que
não havia vida em cada um daqueles garotos.
Quando a luz do dia começava a deixá-los, eram professor e aluna
trocando olhares, esperando que fosse do outro a iniciativa de deixar aquele
lugar.
As chances de contato com o resto do mundo eram tantas quanto as
chances de que alguém passasse por aquela rodovia. Nenhuma.
O professor levantou-se e, com o olhar, convidou a garota a
segui-lo. A aluna levava uma pequena bolsa, que provavelmente continha apenas
alguns badulaques imputeis, e seu fiel trompete. Não tinham a menor idéia da
distância a percorrer até a próxima vila civilizada. Na verdade, sequer
sabiam se já estavam em território polonês. Estavam perdidos, em
todos os sentidos.
O mestre seguiu em frente, acompanhado pela aluna e pelo agudo da
marcha fúnebre, que a garota soprava em respeito aos colegas com quem havia
recém brilhado em algum palco da Ucrânia.
continua…
Estrada Deserta – Parte 2
Conforme ambos caminhavam pela estrada, uma musica leve ecoava pelo
ar, uma fina neblina cobria a estrada. A aluna assustada seguia o professor.
A neblina aumentou em determinado ponto da estrada separando o
mestre da aluna o que deixou a jovem assustada.
Ela começou a chamar pelo nome de seu mestre, sem obter por resposta.
Rudolf Scarovic, ouviu uma voz feminina entre a névoa. Achando ser
sua aluna ele caminhou em direção a voz, uma linda silueta feminina começou a
aparecer no caminho.
Continua…
Por Andy Dufresne
Era incrível como a neblina se tornara densa em tão pouco tempo. Ao
longo de seus 45 anos Rudolf nunca havia presenciado uma alteração
climática tão rápida.
A neblina era faminta. Engolia cada objeto com uma ferocidade
insaciável. Rudolf não conseguia visualizar direito os contornos das
árvores e vegetação do caminho.
A silhueta feminina tomava forma mais definida na medida que ele se
aproximava, tateando a neblina como se fosse uma cortina.
- Olga, Olga, és tu? Perguntou o professor.
- Chegue mais perto, filho de Adão – disse a voz da silhueta.
Rudolf estancou. Aquela voz não era de Olga Kieslowiski, sua aluna.
Aquela era uma voz mais aveludada, sensual , que merecia cuidado.
Muito cuidado.
No mesmo instante um corvo, de algum ponto invisível, crocitou em
sinal de alerta.
Continua…
Estrada Deserta – Parte 4
Por Roland
Olga chamava pelo seu mestre, clamando seu nome e tentando aumentar o volume de sua voz, e se esforçando ao máximo para que a mesma não saísse tremida… Seu instrumento pendurado por uma alça de couro de lei balançava ao seu lado direito de modo que sumia de seu campo de visão a cada intervalo de oscilação, de tão forte e denso que estava o nevoeiro…
- Olga, Olga, és tu?
- Professor, eu não consigo te ouvir, sua voz está distante…
- Chegue mais perto, filho de adão…
Caminhando em direção ao diálogo a pequena percebe, de súbito, uma mancha negra surgindo veloz bem à sua frente. Com um crocitar grave e pesado, um corvo negro se choca contra sua bochecha, e o animal dá duas cambalhotas no ar e se estatela no chão à sua direita.
Ela está machucada, e desnorteada, ela dá duas voltas em torno de si mesma e se perde novamente em meio a neblina.
- Professor, eu não consigo te ouvir mais…
Ela então retoma seu caminha em direção aonde achava que tinha ouvido seu mestre chamar seu nome, mas estava indo para uma direção completamente diferente.
Continua…
Estrada Deserta – Parte 05
Por Rose Madder
Estava longe mas tinha sentido mais do que visto quando o onibus lotado de musicos sofrera o acidente.
Sorriu. Ai estava sua chance.
Certamente sua passagem para fora daquele deserto estava entre os idiotas que sobreviveram ao acidente. Eram dois. Uma moça e um homem maduro. O homem serviria. A moça também poderia ser util, mas ele achava que o homem era melhor.
Séculos se passavam desde que estava confinado naquela estrada sem nada poder fazer. Era muito raro pessoas passarem por ali, e quando passavam nunca paravam.
Mas agora a sorte estava do seu lado. Filnalmente. Sairia de sua prisão e iria conquistar seus objetivos custe o que custar.
Primeiro ele, que era o mais importante.
Se concentrou e criou aquela neblina densa e quase palpavel. Enviu seu corvo para que os observasse de perto e começou a agir…
Continua…
Estrada Deserta – parte 6
Por Beverly Marsh
Griegor trabalhava lentamente, se esforçando para deixar o círculo de terra o mais perfeito possível. Nada poderia dar errado, era uma chance em séculos, a única. O ritual que finalmente o libertaria tinha que ser executado com perfeição milimétrica. Nada podia dar errado. Griegor buscou na memória o traçado das runas e os ângulos do pentagrama que precisava escavar no chão. A terra úmida, deslocada, enchia as narinas e os pulmões envelhecidos. Tantas vezes havia feito aquele círculo de poder, mas isso fora há muito tempo, quando falava com os espíritos, quando os trazia de lugares distantes, das camadas mais profundas da existência, para lhe dar poder. O poder da cura. O poder do conhecimento. O poder da longevidade. O poder da destruição e da corrosão.
Havia passado por muitas terras, e visto reinos surgirem e caírem ao seu redor. Mago, bruxo, profeta, vampiro; muitos foram os nomes que lhe deram ao longo dos anos. Ele passara por lugares que hoje têm nomes muito diferentes. Romênia. Latvia. Hungria. Croácia. Nestes lugares ele fizera muitos inimigos. Os homens sempre temiam aquilo que não entendiam, e aqueles que acumulavam mais do que eles mesmos, principalmente conhecimento.
Enquanto trabalhava com as mãos enrugadas, ele se lembrava da noite em que o doparam com alguma infusão, o colocaram num saco, e o arrastaram até aquele bosque. Lembrou dos cânticos que ouviu quando prenderam seu espírito ao bosque, e como se sentiu vazio ao ser abandonado ali, imortal, preso, parte da terra, parte das árvores. Ele viu dia após dia nascer e morrer, a partir dali, e sentia a dor da construção da estrada por aquele lugar. Naqueles dias muitos trabalhadores circulavam, mas a dor da destruição da mata para a construção reverberava em sua cabeça, e ele permaneceu doente e deitado ao lado de um riacho até que eles foram embora.
E desde então apenas carros passaram. Ninguém sozinho. Ninguém a pé. Até aquele momento. E naquele momento ele estava forte. E era o senhor do corvo, da névoa, do vento.
Fora fácil manipular o som para afastar o homem da garota. Via com os olhos do corvo, e se chocara contra a moça para deixa-la desnorteada e fragilizada. O homem seguia a voz na neblina na direção contrária. Em alguns minutos o círculo estaria pronto. Ele só precisaria do sangue do homem, e de sua semente. Sangue, semente, suor. Para que seu espírito lhe fosse devolvido, para que pudesse voltar a caminhar no mundo com o próprio corpo. E aí que entrava a garota. Talvez pudesse usá-la. Não imaginava de que forma estaria seu próprio corpo quando o ritual fosse concluído.
Griegor concluiu o círculo de terra e começou a entoar os cânticos.
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Olga andou a esmo por alguns minutos até concluir que estava totalmente perdida. A neblina forte envolvia tudo ao seu redor; era como andar e respirar dentro de uma nuvem. Andava com as mãos estendidas à frente, passo a passo, para não se chocar contra as árvores ou raízes ao seu redor. Em um determinado momento, ao dar um passo, seu pé afundou em água. Se agachou, tateou; parecia um riacho. Resolveu andar na linha da água. Era melhor do que andar a esmo. Nem percebeu quando as raizes das árvores próximas começaram a se mover em direção de seus pés…
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- Rudolf…
A voz na neblina sussurrava baixinho, como o vento. O cheiro de pêssegos e ameixas inundou o ar, despertando os sentidos do professor. Sua mente estava torporosa, era algo na névoa, ele pensava, algum gás venenoso de algum pântano, eu estou delirando. Ele sentiu as pálpebras pesadas, e se repente as pernas lhe faltaram e ele se ajoelhou sobre a terra úmida. Sentiu dedos lhe tocarem a nuca, passarem pela linha dos cabelos, pela ponta das orelhas. Dedos de névoa. Uma voz dentro dele gritava, lhe dizia para resistir, o instinto, talvez, de que era uma armadilha, mas o grito era também abafado pela neblina, e chegava à sua consciência muito longínquo. O pensamento que o trouxe à realidade foi Olga. A menina que lhe tinha sido confiada, e por quem era responsável. De repente se lembrou de tudo. O acidente. Os corpos na estrada. O encanto foi parcialmente quebrado, e ele conseguiu se erguer.
- Olga!
A voz trêmula ecoou na neblina. Não houve resposta.
Começou a correr.
Continua…
Roland Deschain
Estrada Deserta, parte 7
Skrrissh…
Olga olhou pra baixo e parou congelada… Ela podia ver por entre a brancura da pesada bruma umas sombras que se assemelhavam a tentáculos se aproximarem de suas pernas… Apavorada, mas sem conseguir ainda gritar, ela lentamente se abaixou para ver o que realmente era e viu que eram raízes… De que árvores ela não sabia qual, mas não se importavam, ela estava se dando conta de que alguma coisa muito estranha estava de fato acontecendo…
- Professor! – Sua voz saiu seca e baixa quando as “atacantes” se enroscaram suavemente em seus tornozelos.
Olga estava esperando ser sufocada por elas, ao menos puxada para dentro do riacho, ou então para dentro de uma floresta densa e assassina, ou talvez ainda mais para dentro da névoa misteriosa, mas acabou se decepcionando.
Três vultos negros de presença fortíssima se aproximaram dela pela frente. Ela não conseguia os ver, mas conseguia os sentir, pela presença de força, de espírito, de alma, talvez.
- Quem são vocês? – Ela perguntou com uma certa calma que a surpreendeu, e pelo visto também surpreendeu o primeiro e mais próximo dos três estranhos.
Certa magia fez parte da névoa se tornar mais rarefeita entre a menina presa e os três estranhos e ela pode ver três silhuetas em algo que imaginou serem batinas, ou burcas, ou seja lá que vestimenta religiosa pudessem ser.
- Pedimos perdão por atá-la a terra, jovem, mas tivemos necessidade de mais uma vez, depois de tempos se passarem, de interferirmos novamente em seu mundo, pois o mal se mostra novamente presente e a possibilidade de mais uma crise mística é eminente.
Olga não se mexeu, mas continuou assustada ouvindo a voz do que imaginava ser uma senhora muito velha, e a voz de um senhor muito velho entrou na palestra.
- Pelo menos, Abigail, desta vez conseguiu fazer contato com alguém que está escutando.
Uma terceira voz, de outra senhora, talvez um pouco não tão velha quando os dois primeiros, mas mesmo assim, ainda muito velha, de uma mulher também, pelo que Olga podia imaginar.
- Soltem as raízes dela, não há perigo nessa daí.
As raízes lentamente se afrouxaram e foram suavemente se afastando de seus pés e Olga reparou que já conseguia ver o rio a seu lado, e sem pensar duas vezes pulou na água.
A correnteza começou suavemente a arrastá-la e ela sentiu que a velocidade ia suavemente aumentando enquanto ela ia se afastando da margem e perdendo a voz dos anciãos na cada vez mais distante margem.
Continua…
Estrada Deserta – parte 8
Por Jack Sawyer
Ziegor Yancovic levantou de sobressalto. Estava desnorteado, perdido, sem saber direito o que havia acontecido. Aos poucos foi lembrando. O ônibus, as várias capotagens, os passageiros e instrumentos voando para todos os lados, a gritaria, algumas pessoas sendo atiradas para fora do ônibus. Depois o silêncio.
“Será que mais alguém havia sobrevivido?” Pensou Zig, como era chamado pelos seus colegas de orquestra. Não conseguiu encontrar seu Oboé, havia uma espessa nevoa que dificultava a visibilidade, mas no momento isso não importa, o importante mesmo, era localizar o ônibus e procurar sobreviventes.
Começou caminhar a esmo, tentando localizar o ônibus. Percebeu que seus passos pararam de produzir o ruído característico de quando se pisa em cascalho. Pelo menos havia encontrado o alfalto.
Não percebeu um corpo logo atrás dele.
Seu corpo produzia uma leve luz azulada, como se sua roupa fosse de néon. Não achou estranho. Naquela área deserta sempre aconteceram testes nucleares. Provavelmente, era algum resíduo que estava vindo com a nevoa e reagindo com sua roupa. Mesmo no espesso nevoeiro, podia -se ver uma grande luminosidade azulada. Provavelmente era o local que o ônibus capotou.
Já próximo do ônibus pode ver vários pontos luminosos se movendo lá dentro. “Porque eles não saem?” pensou novamente. Tentou gritar, mas não conseguia. Experimentou jogar uma pedra, mas havia algo errado. Não conseguia pegar a pedra. Achou que talvez tivesse quebrado os dedos e não havia percebido. Tentou golpear o ônibus, mas seus punhos atravessavam a lataria do veiculo. Sem entender ficou olhando para as mãos, como havia conseguido fazer isso? Foi quando ouviu uma voz, falando dentro da sua cabeça.
“Não adianta. Já tentei isso. A verdade é que estamos todos mortos”.
Zig ficou olhando para os lados, pra ver de onde vinha a voz. Havia vários corpos em volta do ônibus.
De repente ouve o grito de Olga chamando pelo Sr. Rudolf.
Continua…
Estrada Deserta – Final
Beverly Marsh
batiam contra seus braços e face, arranhando a pele. Os pés volta e
meia escorregavam nas folhas mortas no chão. O cheiro de vegetação
úmida era forte e queimava as narinas; os olhos ardiam devido à
neblina. Ele gritava cada vez mais forte. “Olga!”
“OLGA!”
Mas o som de sua voz parecia ficar preso em meio à névoa, não se
expandia. O coração batia acelerado, o peito parecia que ia explodir,
uma dor forte lhe tomou os pulmões e ele entrou em pânico. O esforço,
o medo, uma artéria no cérebro era mais frágil que as outras e começou
a sangrar. A cabeça doeu como se tivesse sido arrancada. O professor
caiu de joelhos, segurando a cabeça entre as mãos, e a escuridão o
tomou.
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Olga se deixou levar pela correnteza. Não sabia muito bem porque tinha
feito aquilo, apenas lhe pareceu na hora o melhor caminho a tomar, mas
agora não tinha mais certeza. Boiava na água fria, mas quando a
velocidade da água aumentou, ela tentou tocar o pé no chão, e só tocou
água. O corpo afundou pesadamente quando ela perdeu o equilíbrio, água
lhe entrou pela boca e narinas, tentou se debater e subir novamente à
margem, mas as pernas se entroscaram em algas e ela se sentiu puxada
para baixo. Em poucos segundos, ela deixou de lutar. Não adiantava
mais. O mundo começou a girar ao seu redor, enquanto o frio se
apertava sobre ela mais e mais intensamente.
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Griegor estava em transe. Dentro do círculo, observava enquanto a
floresta tomava a energia e os corpos dos forasteiros. Não havia sido
como ele planejara, mas poderia fazer o ritual de forma diferente, a
magia tinha muitos caminhos.
“Tudo nesta vida é um caminho”.
Ele estava tão concentrado olhando pelos olhos da mata que não
percebeu as três formas encapuzadas se aproximando por trás dele. Só
percebeu que tudo estava arruinado quando sentiu o metal do punhal lhe
atravessar o peito; ferro frio. E um segundo toda a sua vida passou
diante de seus olhos; todo o conhecimento que acumulara, perdido. A
energia que emanava dele se deslocou em uma pequena explosão que
arremessou o corpo dele para a frente, e os três atacantes foram
lançados para trás, confusos. Tão logo se puseram novamente em pé,
começaram a agir.
“Rápido, Abigail, pegue as folhas de Verbena!”, disse o mais alto e
mais jovem dos três. A velha, em silêncio, enfiou a mão enrugada em
uma bolsa de couro amarrada à cintura, e tirou dela um punhado de
folhas secas. As folhas foram jogadas no chão, e os três se ajoelharam
em um círculo ao redor delas. O mais velho fez um gesto elaborado com
uma das mãos, e uma chama pequena porém forte surgiu em meio às
folhas, que queimaram rápido, exalando um cheiro adocicado. Eles
uniram as mãos, e se balançaram ritmicamente enquanto a voz da velha
se erguia entoando versos em uma língua já morta, um réquiem já
esquecido, cada vez mais rápido, invocando vento, brisa, chuva, raio,
e terra.
O corpo de Griegor se movia vagarosamente, em espasmos. Quando a voz
da velha cessou, o corpo parou de se mover. E nunca mais se levantou.
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Olga saiu do rio ofegante, rastejando, ainda lutando por ar. Não
entendia o que tinha acontecido, mas estava aliviada! Depois de algum
tempo a consciência lhe retornara, e seu corpo não mais estava
enrolado nas algas; encalhara em um banco de areia, e ela tossira, até
a água deixar seus pulmões e ela conseguir respirar. Cambaleou pela
margem do rio, até que a neblina começou a se dissipar.
Já era noite.
Não soube dizer por quantos minutos tropeçou no escuro chamando por
seu professor. Só parou quando encontrou seu corpo sem vida jogado no
meio do mato. Um fio de sangue escorria pelo canto da boca, manchando
o que seria, em outras circunstâncias, um leve sorriso.
Ela se sentou com o corpo entre os braços e chorou. Estava perdida
numa floresta deserta, rodeada de corpos, sozinha, de noite, molhada.
Chorou como nunca tinha chorado em toda a sua curta vida.
Chorou até que notou, perto de uma pedra, uma luz azulada.
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Os três conjuradores estavam exaustos. O ritual que acabaram de
concluir às pressas exigia demais daqueles que o realizavam, e
idealmente deveria ser feito por quatro. E no início eram quatro; o
corpo daquele que um dia fizera parte deles jazia no chão, chamuscado,
torto, sem vida.
“Acabou, então?”. A voz do mais velho cortou a escuridão suavemente.
“Todo o passado se foi, junto com Griegor?”
“Nunca acaba de verdade, Yanus”, a voz da velha se tornara doce e
pensativa. “Nós apenas voltamos para a roda, e depois retornamos para
cá, até o fim do mundo”.
“Todos esses anos, e nunca encontramos uma forma de trazê-lo de volta
para nós. Seu espírito estava por demais corrompido pela ganância e
pelo orgulho”. O mais jovem se ergueu com cuidado, e foi até o corpo
de Griegor, pousando a mão em sua fronte. “Ele sempre foi surdo a
nossas súplicas. Esta foi a única forma, Mãe.”
Abigail suspirou, e sua voz estava insegura. “Mas o Gilgul é e última
opção, sempre, Yoric. Separar um mago de seu espírito e de seu Avatar
enquanto ainda vivo… É perverso demais. Ele não aguentou. Poucos
sobrevivem a isso”.
“Ele está em um lugar melhor, Abigail”. Yanus se levantou e estendeu a
mão a ela. “Vamos. Temos alguns ajustes a fazer antes de ir para
casa”.
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Rudolf olhou para a forma borrada de Olga na escuridão. Tudo ao redor
dela brilhava com uma fumaça azulada. Olhou para seu próprio corpo que
jazia no colo da moça. Olhou para a própria mão, translúcida. E
percebeu que não estava só. Olhou para trás e viu várias luzes
azuladas se movendo na escuridão, estranhos vagalumes. Uma voz
conhecida soou atrás dele. Era Ziegor, o tocador de Oboé.
“Então só ela sobreviveu a tudo?”
O professor pensou. A mente estava clara, agora, muito clara. De
repente tudo fazia sentido. O mundo fazia sentido. A dor, o
sofrimento, a alegria… Tudo se encaixava.
“Creio que sim, meu caro… Mas vamos” – e Rudolf pegou o braço
imaterial de Zig com familiaridade. “Sinto que estamos sendo
chamados”.
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As lágrimas ainda secavam no rosto de Olga quando ela viu o fenômeno
mais belo de sua vida acontecer em meio àquela tragédia. As luzes
azuladas que ela vislumbrara na escuridão estavam flutuando no céu,
devagar, cada vez mais alto. Em meio a cada luz ela distinguia de
relance uma forma humana. As formas pareciam acenar para ela. Subiam
dando voltas, em espiral, até se tornarem vagas estrelas azuladas e
sumirem no céu.
E ela se sentiu em paz.
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Muitos anos depois, Yanus, Yoric, Abigail e Olga voltaram à floresta.
Lá fizeram um rito de passagem para Olga; ela se tornava, naquela
noite estrelada, um deles. Estava treinada, e tinha pleno domínio do
poder que aprendera a controlar nos últimos anos. Ela sabia que era
importante para os magos. Em quatro, sempre eram mais fortes. Ela
aprendera a história de Griegor, e honrava a chance de aprendizado que
lhe fora oferecida naquela noite quando os espíritos deixaram esta
existência diante de seus olhos, libertados pelos forasteiros. E
Abigail estava muito feliz, também. Duas mulheres e dois homens trazia
um equilíbrio perfeito para a Cabala.
Mas nenhum deles, nem mesmo Olga, poderia imaginar que a interrupção
do ritual de Griegor havia sido um pouquinho tardia. E que quando Olga
estava morrendo, no escuro entre os mundos, um pedacinho de seu
espírito se instalara no dela.
Ninguém viu a sombra escura que cruzou os olhos azuis da mulher no
momento em que ela sorria, olhando para a floresta na manhã seguinte,
admirando a beleza do lugar durante o dia. E ela não entendia porque
se sentia tão bem ali… Nem tão eufórica.
Mas isso ainda pertence ao futuro… O presente é uma manhã ensolarada
de verão, em uma floresta com árvores preguiçosas e um céu azul de
poucas nuvens, com uma estrada deserta cortando sua margem.
O futuro… Ainda é outra história.
FIM
VOLTAS QUE A VIDA DÁ.
Caros Hóspedes Fiéis,
Mais um conto para nosso concurso.
- Andy
2º LUGAR
Por: Dra. Joyce Reader
Foi no quinto aniversário de casamento deles, estavam felizes com a comemoração. Gilberto estava radiante ao lado de sua jovem esposa Madalena.
Ele conheceu madalena numa entrevista de emprego, a moça na época tinha 23 anos e ele completaria 40. Todos da família de Gilberto foram contra o namoro e o casamento. A cerimônia ocorreu cinco meses após o começo de namoro.
Dois anos mais tarde Gilberto descobriu que tinha um problema cardíaco, e que poderia morrer caso não recebesse um novo coração. A fila de transplante era muito grande e Gilberto fazia tudo o que o médico mandava, mas, ele andava cada dia mais cansado.
Naquela semana Gilberto estava mais disposto e organizou uma cerimônia em sua casa, para amigos íntimos da família.
Madalena beijou a face do marido e disse:
- Meu amor eu estou tão feliz que esteja disposto. Obrigada pela bela festa.
- Querida eu que me sinto feliz em poder te agradar, adoro quando partilhamos nossa felicidade com nossos amigos. Veja Mada, não é seu irmão que está chegando.
Madalena abriu um sorriso:
- É sim querido.
- Minha irmã, como vai? – disse o rapaz que acabava de chegar. – Cunhado o que posso dizer, você está muito bem. Lena, nossa mãe manda lembranças e felicitações a vocês.
- Quando poderei conhecer minha sogra? Adoraria falar com ela.
- Gil, você sabe que isso é impossível, minha mãe é surda muda. E não gosto de ver pessoas. Depois que papai morreu ela se isolou no interior de Minas e tem vivido bem lá.
- Mesmo assim, gostaria de ter a honra de conhecer a mãe de minha esposa. Estou aprendendo até os sinais para poder conversar com ela. Bom, querida agora eu vou deixá-la na companhia de seu irmão para ver se todos estão sendo bem atendidos.
O jovem rapaz parecia ter a mesma idade de madalena, era bonito e forte, falava muito bem e se vestia bem. Gilberto no começo estranhou Madalena nunca ter mencionado a família, mas depois do aparecimento do irmão a pouco mais de um ano ele soube o motivo.
Rodrigo e madalena não se falavam há muitos anos. Desde a morte do pai ela veio para São Paulo e ele foi cuidar da mãe no interior de Minas. Numa tarde de inverno eles se encontraram num café e desde então tem se falados todos os dias, mas, a mãe da jovem ainda não havia perdoado a filha por ter partido. Pelo menos essa foi à história que eles contaram a Gilberto.
Numa tarde de inverno Madalena entrou num café para tentar se aquecer. Sentou numa mesa e um jovem garçom veio atender-lhe. Foi amor à primeira vista, Madalena, não se conteve quando ele veio trazer a conta, e num guardanapo deixou o numero do seu celular. Uma semana depois estavam num motel três estrelas no subúrbio da cidade.
Ela sempre dizia ao jovem amante que terminaria o casamento, mas, nunca tinha coragem, pois o marido sofria do coração, o jovem amante então resolveu se relacionar com o casal, se passando pelo irmão que madalena nunca teve.
O amor de Gilberto era tão forte que ele acreditou logo na conversa dos amantes. Assim madalena, começou a freqüentar o quarto de Rodrigo sem ter que mentir para o marido sobre seu paradeiro.
Rodrigo então teve a idéia de matar Gilberto. Assim a amante ficaria com todo o dinheiro do marido e eles poderiam ficar juntos e ricos.
Com a ajuda de Madalena, Rodrigo molhou o piso da entrada principal da casa, deixando-o escorregadio, uma queda poderia fazer Gilberto ferir-se gravemente e até mesmo morrer, não era um plano eficaz, mas, poderia sim dar certo, acidentes acontecessem com muita freqüência, até mesmo mais do que podemos imaginar.
Na realidade o acidente aconteceu, mas, não como eles esperavam.
Madalena escorregou na escada e machucou o tornozelo. Rodrigo correu para ajudar a moça escorregou em sua própria armadilha, bateu com a cabeça na quina do degrau ferindo-se gravemente.
O rapaz foi levado ao pronto socorro e em seguida os médicos disseram a madalena que o jovem havia tido morte cefálica. Eles precisavam contatar a família para doarem seus órgãos.
Madalena disse que ela era a única família do jovem. Explicou ao médico tudo o que havia acontecido desde que conhecerá Rodrigo, ocultando apenas o plano de matar o marido. Assinou a doação dos órgãos e pediu para que o coração do amante fosse transplantado para o marido. Gilberto a essa altura já era o primeiro da fila de órgãos o coração de Rodrigo fora transplantado nele e outros órgãos foram doados a pessoas diferentes.
Hoje Madalena completa seis anos de casada. Preparou um jantar para ela e o marido comemorarem sozinhos, mas, ele não apareceu.
A empregada entrou no quarto da jovem.
- Senhora! Sr. Gilberto ligou agora e disse que não virá para jantar, está numa reunião de negócios.
- Obrigada. Jacira, ele por acaso disse o nome da reunião de negócios?
- Não senhora.
Jacira ia saindo, mas, voltou a quarto com um pergunta.
- Dona Madalena, como a senhora agüenta essa situação?
- Remorso Jacira, remorso.
Madalena ficou olhando a janela, enquanto Jacira saia do quarto fechando a porta levemente.