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Dez Pedaços

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Caros hospedes, este é mais um conto que está participando do concurso em homenagem ao nosso querido Andy

1.

Era um sol escaldante na aridez do sertão, na amplitude seca,
esturricada. Naquele lago amarelado de poeira e calor, a casa branca e
simples, de paredes de barro caiadas de branco e o telhado de telhas
vermelhas parecia um santuário. Os zumbidos das moscas e o do vento
eram os únicos sons daquela paisagem. As moscas estavam agitadas. Ele
estava sentado no chão, negro e nu, o sol reluzindo na pele suada, a
cabeça entre as mãos, enquanto balançava o corpo suavemente pra frente
e pra tras. Do dorso escorria sangue em filetes espessos. Da coxa
esquerda também. Os policiais não erraram todos os tiros.

2.

Ele estava tomando banho numa lagoa pequena que se escondia atrás de
umas pedras. A água da lagoa estava escura, feia e quente. Fedia a
minério, minerais, folhas mortas, mas ele estava coberto de sangue,
precisava se limpar. Deitou a cabeça dela com cuidado sobre uma pedra
chata para que não rolasse, fechou os olhos negros e atrevidos que o
olhavam zombeteiros. Por isso lhe arrancara a cabeça. Não conseguia
suportar os olhos. Se agachou na lagoa, com o facão ainda na mão, o
sangue formava uma capa espessa sobre sua pele e cabelos. Sangue do
pai. Sangue da mãe. A mãe cigana, bruxa e zombeteira. ‘Ria agora,
puta!’ Queria ver ela rir.

3.

No relatório os policiais descreveriam com detalhes a cena: ele nu, na
lagoa morta, a cabeça da vítima sobre a pedra. O olhar de animal
acuado, enlouquecido, que ele lhes lançou. Olhar de animal que precisa
ser sacrificado. Ele pulou, ágil, pegando-os de surpresa, agarrou a
cabeça pelos cabelos desgrenhados, em nenhum momento tinha largado o
facão. No susto, atiraram. As balas entraram na carne rígida,
perfurando o couro luzidio, fazendo o sangue esguichar.
Perseguiram-no, mas ele era rápido e conhecia cada palmo daquele
labrinto traiçoeiro de pedras. MaseEle estava sangrando. Deixassem ele
sangrar, iam seguir o rastro e o pegariam depois.

4.

Foi naquele ano que ele desandou. É assim que se diz? Até que era. O
filho único da rezadeira, filho da bruxaria. Era um rapaz calmo,
educado, forte. Trabalhava na roça quando dava, não era perdido na
vida e na cachaça, não era homem de andar com as putas nem de arrumar
confusão nem briga. Calado, calado. Alto, forte, negro reluzente, de
sorriso branco e fácil. Um dia deu pra ver o diabo, a mãe era bruxa, o
pai era fraco da cabeça apesar de ser um homem bom, a mulher fazia
tudo em casa.

5.

Ele chegou na casa branca de telhas vermelhas com o facão, a vista
turva. Os demônios estavam ao seu redor, rindo, girando, alegres,
rindo de sua miséria. ‘A bruxa!’, eles diziam. ‘Você tem que matar a
Bruxa! Água e folha e vento e pó, na neblina, rápido! Eles estão
chegando!’ E ele não hesitou. Mas o pai veio primeiro, o homem bom,
hesitou, sem saber se defendia a mulher ou o filho amado. Ele entrou
na frente, e foi lento, lento, a cada golpe o sangue espirrava,
molhava as paredes brancas, umas, duas, cinco, quinze vezes, até ele
cair. Nem assim ela parava de rir, a bruxa demoníaca. Arrancou-lhe a
cabeça com um só golpe, artérias, veias, ossos se partindo com um ramo
seco sob a força do facão. O silêncio que veio depois foi
insuportável, e ele saiu pela porta como se entrasse em um túnel muito
iluminado. O sol lhe machucou os olhos. A cabeça pendia entre seus
dedos escorregadios, e ele entremeou os fios nos dedos sem perceber.
Arrancou a roupa com uma só mão, o tecido apertava, machucava como
alfinetes. O céu estava vermelho. Saiu a esmo procurando um lugar pra
ficar.

6.

Era o primeiro filho deles. A mulher estava grávida já perto de parir.
A noite fria do sertão causava arrepios nos dois, ele deitado com a
cabeça próxima ao ventre da curandeira. ‘Ele um dia fará grandes
coisas’, ela profetizou. Sabia que era um homem, o filho.

7.

Os policiais o encontraram deitado do lado de fora da casa, nu, sujo,
empoeirado. O rastro de sangue os levara até ali. Não largara a
cabeça. As moscas entravam e saíam da boca aberta, das narinas, das
orelhas. Ele estava deitado na sombra da casa, a respiração ora
regular, ora entrecortada. Só os olhos denunciavam que ele via algo.
Um algo que ninguém nunca veria. Ele não protestou quando eles o
arrastaram de qualquer jeito e colocaram no carro. Nem quando o
espancaram enquanto faziam um monte de perguntas. Ele nunca mais
protestou.

8.

O colocaram num manicômio judiciário na capital. Do seu quarto ele
pode ver o mar, mas não vê. Ele nunca mais acordou do seu sonho com
demônios e fantasmas. Eles vivem pra sempre trancados em sua mente. Em
sua mente ele continua sob o sol escaldante, no sertão amarelado e
vazio, pingando sangue na terra, e o facão está sempre ao seu lado. Na
cabeça cortada o sorriso zombeteiro o persegue a cada passo. “Um dia
ele fará grandes coisas”foram as palavras da mãe.

9.

“Mãe, me ajuda, Eu não quero morrer aqui assim”. Mas ela nunca mais respondeu.

10.

Saiu uma nota no jornal. Ela deu origem a esse conto.

Escrito por debbylenon

25/04/2010 às 10:29

Publicado em Concursos, Contos

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