Overlook Hotel

Lista de discussão sobre Stephen King

No Acalanto da Noite

com 2 comentários

Caros Hóspedes Fiéis,

Mais um conto para nosso concurso.

- Andy

Kleber estava terminando sua cerveja e pensando sobre os últimos acontecimentos em sua vida. Na razão pela qual estava tão distante de casa. Escondido dos problemas e principalmente de problemas ainda maiores.

Havia sido idéia de Ratão ele dar um tempo na casa da irmã, no interior de São Paulo. Pelo menos até as coisas esfriarem. O incidente com a velha poderia trazer mais complicações, e isso poderia afetar todo o esquema que eles tinham na região. Portanto, o melhor era dar um tempo longe do local e voltar só quando as coisas se acalmassem.

A velha tinha estragado tudo. Custava ela ter colaborado no assalto? Não, ela tinha que dar uma de mocinha e reagir, dando-lhe bolsadas na cabeça e gritando por ajuda. Ele não tinha a intenção de feri-la, mas quando percebeu já tinha lhe enfiado o canivete logo abaixo da axila esquerda.

O problema maior era que a velha era mãe de um policial, e ele sabia que o coxinha não iria deixar de ir atrás dele, e de quem estivesse com ele.

  • Mais uma gelada, por favor? Pediu ao balconista.
  • É pra já, filho! – disse o balconista pegando mais uma garrafa de seu freezer horizontal.

O lugar não estava muito cheio. Havia alguns homens jogando dominó e outros jogando sinuca. Já estava na cidadezinha há uns três dias e não estava mais aguentando o lugar. Era sossegado demais para ele. A agitação da cidade era o que lhe agradava. O tumulto das pessoas trafegando pelas ruas. Além do que, era perfeito para executar seus furtos e sumir no meio da multidão.

Desde que seus pais morreram em um acidente de carro, há 10 anos, e ele passara a morar com uma tia, as coisas haviam se enveredado por outro caminho. Estava com 13 anos na época, e as mudanças da adolescência já estavam aparecendo. O nervosismo e a intolerância já eram presentes, mas com a falta dos pais esses sentimentos haviam sido multiplicados. Logo ao mudar de escola, por conta de ir morar com a irmã de sua mãe, ele começou a se envolver com uma turminha barra pesada. Conheceu os cigarros de maconha, e antes do final do ano já estava tendo seus momentos de intimidade com a cocaína

Mas Kleber sempre procurou esconder tudo dos tios. Não entregava os bilhetes que a diretoria encaminhava. Quando seu tia participava das reuniões ele sempre dizia que os professores estavam de marcação com ele. Que suas notas não eram tão ruins. Tudo graças às colas que pegava dos colegas em troca de um pouco de erva. Mas isso seus tios não precisavam saber, é claro.

As coisas ficaram melhor quando seu tio faleceu, 4 anos depois, deixando sua tia quase louca e apavorada em poder cuidar das contas do mês. Foi quando ele largou os estudos, com o pretexto de ajudar sua tia nas despesas de casa. No entanto, o dinheiro que vinha para dentro de casa era fruto dos furtos de Kleber.

Através dos amigos ele conheceu Ratão, que gostou do jeito do rapaz e viu que poderia usá-lo nas diversas formas de trabalho ilícito que tinha montado na região.

Por vezes quase havia sido apanhado pelos policiais. Mas era esperto, e sempre conseguiu se safar. Mas tudo mudou com o assalto da velha. No dia seguinte duas viaturas começaram a fazer patrulha na área, forçando-o a ficar escondido. Foi quando Ratão sugeriu a mudança de ares.

Sua tia não desconfiou muito. Há tempos que queria um pouco de paz e distancia do sobrinho. Quando ele disse que iria visitar a irmã, ela apoiou a decisão com um grande sorriso nos lábios.

E lá estava ele, em volta com um povo sem graça e privado de poder cometer seus delitos, pois além de tudo a cidade era muito pequena, e qualquer tentativa de poder realizar qualquer assalto iria lhe incriminá-lo, e no momento ele tinha que manter os olhares longe da sua pessoa.

O som da pedra de dominó sendo esmagada contra a mesinha de madeira chegou até seus ouvidos, arrancando-o de seus pensamentos.

  • Bati, pato! Gritou um dos caras da mesa.- Fechamos o raio, hehehe. Lambreta, lambreta ?- Ria ele com sua boca desdentada.
  • Mas agora vamos à forra, Juvenal ? – disse um dos adversários.

Juvenal olhou para seu relógio e sacudiu a cabeça.

  • Fica pra uma próxima, pessoar. Tá ficando tarde, e tenho um caminho longo pela frente. Não quero ser pego pelo lobisomem.

Kleber quase cuspiu a cerveja da boca com vontade de rir.

  • Lobisomem? Vocês acreditam ainda nessas histórias? Perguntou Kleber não se contendo.

Juvenal se virou e encarou o rapaz com os olhos cerrados.

  • Ocê num é daqui, né garoto?
  • Não, sou da capital! Disse Kleber com o queixo erguido em sinal de superioridade.- Estou passando uns dias na casa da minha irmã.
  • Pois se fosse você não iria demorar muito pra ir pra casa.
  • Por causa do lobisomem? Disse Kleber sufocando um riso com as costas da mão.
  • Escuta aqui, filho! Por essas bandas tem um bicho que anda durante as noite de lua cheia, como hoje, e posso te dizer que num é um bicho quarqué. É um bicho que perambula pelo nosso quintar, e se apropria das nossas criação. É um bicho que num tem medo de nada e que seus uivos congela o sangue nas veia de quarqué um. Se fosse ocê, num ficava se disfazendo das coisa que num conhece. Principarmente de uma coisa que num pertence ao mundo dos vivo.
  • Como assim “dos vivo”, alguém já tentou matar essa tal criatura e não conseguiu?
  • Sim, senhor! Foi isso mesmo que já tentaro fazê. Mas ninguém nunca conseguiu penetrar o couro do bicho. Nem com tiro, nem com faca, nem pau e nem pedra. Nunca conseguiram tirar uma gota de sangue daquele bicho. Dizem até que ele consegue sentir o cheiro de gente ruim. Já ficamos sabendo de pessoas que encontraram com a criatura e levaram uma sova daquelas. Pessoas que num eram muito boas e outras que num acreditavam que a criatura existia. É um bicho de que não se pode fugir e nem enfrentar.
  • O senhor deve estar brincando comigo – disse Kleber olhando para o senhor na sua frente. Mas os o lhos de Juvenal não demonstravam brincadeira. Eram os olhos de alguém que já havia visto muita coisa na vida. Olhos experientes e matreiros.

Kleber olhou para as demais pessoas que estavam no estabelecimento, e todos prestavam atenção ao que estava sendo dito e encaravam Kleber de maneira hostil.

Era como estar rodeado de lobos. Observando cada movimento seu, esperando apenas o momento do ataque.

  • Tudo bem, gente! Eu acredito em vocês. É que na cidade não temos a oportunidade de encontrarmos esse tipo de animal.
  • Acho que está na hora de você ir pra casa, filho! Disse o balconista de maneira pouco amigável.

Kleber sentiu que era o melhor a ser feito. Tirou o dinheiro da carteira e pagou pelas bebidas.

  • Tenham uma boa noite! Disse ele aos senhores que estavam ali.

Eles não responderam, e na verdade Kleber nem estava esperando que o fizessem. O melhor era ir para casa tomar um banho quente e ir para a cama.

A casa de sua irmã era um pouco distante do bar em que estava. Mas Kleber não estava com muita presa de chegar logo. Aqueles caras estavam ficando caducos. Bando de senis. Eles que acreditassem nas histórias malucas que inventavam.

Havia um modo de Kleber chegar mais rápido até a casa da irmã. Era por dentro de um pasto próximo. Não que ele quisesse chegar mais rápido em casa, mas era um excelente lugar para acender um baseado. Longe dos olhares curiosos do lugar.

Kleber pulou a cerca de arame farpado e se encaminhou para debaixo de uma árvore que ficava quase no meio do pasto.

A lua brilhava leitosa acima de sua cabeça. Uma linda noite de lua cheia. Ideal para namorar, ou queimar um baseado. Como ele não estava com nenhuma garota, o melhor era acender logo o bagulho.

Se acomodou junto ao tronco da árvore e tratou de acender seu companheiro. Logo nas primeiras puxadas começou a se sentir mais tranqüilo. Mais leve, solto e alegre. Um sentimento que só aquelas maravilhas podiam lhe proporcionar. Sabia que os olhos logo estariam vermelhos. Mas sempre podia colocar a culpa na cerveja. Sua irmã e seu cunhado não iriam desconfiar.

Um som abafado chegou até os ouvidos de Kleber. Que não deu muita atenção, por conta dos efeitos da maconha. Logo o barulho se tornou mais próximo. Sons parecidos com pisadas, só que mais suaves, mais macias, acolchoadas, como patas.

O grande vulto passou por Kleber, e parou. Kleber se engasgou com aquela visão. A criatura voltou seu enorme volume corporal na direção dele. Fungando o ar. Sentindo o aroma que estava ao seu redor. Sentindo o cheiro de Kleber. Era o maior cachorro que ele já vira. Um pastor-alemão gigantesco. Seus olhos encontraram os olhos do animal. Um amarelo-alaranjado penetrante. Kleber começou a duvidar que se tratasse de um cachorro. Talvez fosse o animal de que os caras do bar estavam falando. O lobisomem.

Ele sacou seu canivete automático, mas não teve de usá-lo, pois a enorme pata desceu sobre sua mão e lhe arrancou o canivete, junto com outros três dedos. O nó na garganta não lhe permitiu que soltasse nenhum som em busca de socorro.

O enorme animal se aproximou ainda mais de Kleber. Seu focinho quase lhe tocava o nariz. Seus olhos agiam como que imãs aos olhos de Kleber. Era impossível se desviar deles. A vontade do animal era maior que sua vontade.

Dizem que quando estamos próximos da morte um filme passa diante de nossos olhos. Kleber pôde ver esse filme através dos olhos do grande animal. Um filme de sua vida de maldades, brutalidades e crimes. A última imagem que lhe chegou aos olhos foram da pobre velhinha que tinha lhe atravessado o caminho. Viu-a tentando lhe repudiar com a bolsa e viu quando o canivete lhe penetrou na carne, fazendo com que a pobre senhora parasse de atacá-lo e se contorcesse de dor no meio da calçada.

Aquela imagem lhe revelou no que ele havia se tornado. Ele percebeu em que tipo de ser humano ele era agora. Talvez por isso ele não tenha conseguido lutar quando o grande animal enterrou os enormes dentes em seu pescoço. Foi uma morte rápida, quase indolor. Afinal, ele poderia até agradecer por esse desfecho derradeiro.

Nunca encontraram seu corpo, e sua irmã achava que Kleber poderia estar em qualquer lugar, já que tinha uma vida totalmente incerta, e os caras do bar não comentaram mais sobre aquela noite em que viram o garoto pela última vez. No fundo eles sabiam o que havia acontecido. Mas a coisa havia se tornado um segredo entre eles. Um segredo que eles compartilhavam apenas com a grande criatura e com a lua cheia, leitosa e imponente.

FIM

Escrito por charliesants

12/01/2009 às 12:05

2 Respostas

Subscreva aos comentários comRSS.

  1. [...] e Contos No Acalanto da Noite A vingança de Yuri – Parte [...]

  2. Fiquei imaginando no detalhe os dedos do cara voando com o canivete… como tera sido?

    Galdir

    24/02/2009 em 05:36


Deixe uma resposta